domingo, 28 de novembro de 2010

Um minuto de silêncio


Silêncio? O que é silêncio?
Uma palavra inventada pelos ouvintes?
Explica-me tu, o que é silêncio?
Olhas-me assim?
A viver no silêncio?
Ser Surda é ser Silêncio?
Vou ao dicionário, folheio nas últimas folhas
vou ao "s"... encontro "SURDO"
"Que ou aquele que não ouve."
Sou aquele que não ouve?
É assim que me vês?
Vou ao "silêncio"
"ausência de ruídos"
ruído? o que é "ruído"?
Mais uma palavra do ouvinte.
Não, desconheço o silêncio
Desconheço o ruído
Desconheço essas palavras.
Simplesmente, não ouço?
Ouço sim, ouço as minhas mãos, ouço as tuas
as minhas mãos é que são minha voz.
São elas que fazem encantar
São elas que fazem escrever estas palavras,
são elas que fazem gestos, sabe o que é gesto?
Gestos são palavras esculpidas
mas silêncio e ruído,
desculpe mas não os conheço!


Marta Morgado
Mestrado em Lingua Gestual Portuguesa - LGP
Coordenadora de LGP no CED Jacob Rodrigues Pereira

Poema LIBRAS de Vanesa Lessa



Repare nos movimentos, graciosidade e na construção mental que essa poesia nos propociona, bela junção de sinais, enfim. Belo Poema!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

METADE - Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito, a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada mesmo que distante
Porque metade de mim é partida, a outra metade é saudade.
Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço, a outra metade é o que calo.
Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso, a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso que me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo, a outra metade é cansaço.
Que a arte me aponte uma resposta mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar, pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor
e a outra metade também.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Poesia de Mãe ...



Você precisa ser surdo para entender
um mundo vazio e tão diferente
um olhar solitário em meio à multidão
um constante silêncio, quase um castigo
gestos que buscam ajuda, quase sempre em vão.

Você precisa ser surdo
para descobrir que gritar não ajuda
que falar não é sinal de inteligência
que calar não é atestado de loucura
que é apenas ser diferente.

Você precisa ser
participante deste mundo
Onde mãos falam e olhos escutam
Onde o corpo dá a nota e o ritmo
É um mundo especial para pessoas especiais.

Você precisa
saber as dificuldades de um vocabulário resumido
(Onde muitas palavras não existem)
perdoar quando não obtiver resposta
(Imaginar que não foi compreendido)
vê-los ignorarem os risos
(Apenas para fazerem parte do nosso mundo perfeito)

Você...
... provavelmente não é deste mundo
... nem pode se tornar parte dele
Mas as palavras faladas de suas mãos em movimento...
... podem torná-lo parte do seu mundo.

Sim, você precisa ser surdo para entender
a alegria de compreender mãos que falam e olhos que escutam
os olhos atentos agradecidos às respostas de paz e esperança
o amor que, em Jesus, é possível encontrar

Mas, para isso
Você precisa ser ouvinte e fazer.

Poesia de Patrícia F. da Silva, 24 anos, mãe de Renam Fernandes da Silva, 7 anos, paciente com deficiência auditiva do Centrinho/USP desde 2001. Moradores de Araraquara (SP).